Desenho - O "Poder das Caixas" e 12 exemplos de artistas para inspirar seu estudo de volumes e perspectiva

Agora que já vimos a estrutura básica do estudo do desenho e alguns exercícios e técnicas para começar e evoluir, gostaria aqui de me aprofundar um pouco no desenho construtivo, racional, baseado na perspectiva e apresentar alguns exemplos de artistas que usam bastante esta abordagem. Para quem ainda não leu os posts anteriores, seguem os links:

Um leitor do blog me indicou recentemente este vídeo abaixo, do artista Rene Aigner, que enfatiza o uso de caixas como base estrutural de todo desenho. Segue o vídeo para depois começarmos a discussão.

Recapitulando, o método construtivo sugere o uso de sólidos, principalmente objetos geométricos simples, como a base estrutural de um desenho, assim como o uso de ferramentas de perspectiva para posicioná-los no espaço.

O que este vídeo nos apresenta é exatamente o mesmo conceito, que ele chama de "Smart way" (ou modo inteligente) de se aprender a desenhar, em contraponto ao "Hard way" (ou modo difícil) que seria através de métodos totalmente bidimensionais. Já citei este conceito anteriormente utilizando como referência um vídeo de Feng Zhu, que você encontra aqui ao lado (Rene cita esta referência também em sua explicação)

Porém, neste caso, ele apresenta e enfatiza as caixas (sejam elas cúbicas ou não) como os objetos mais simples de serem posicionados em perspectiva e, sendo assim, elemento a ser estudado e aperfeiçoado desde o começo da aprendizagem. Estes seriam literalmente os building blocks ou blocos estruturantes de todo e qualquer desenho. 

Como ele diz no vídeo, "todos os seus desenhos irão melhorar se você estudar perspectiva, pois seja uma figura, um veículo, um objeto ou um prédio, todos nada mais são do que formas tridimensionais em perspectiva em um espaço tridimensional com perspectiva". E é estudando grids de perspectiva e posicionando caixas nos mesmos que você aprenderá a posicionar qualquer objeto tridimensional em qualquer espaço tridimensional. 

Após a masterização das caixas, do simples, a complexidade será gradativamente inserida na forma de alterações nos formatos das caixas, na utilização de outros sólidos geométricos simples e por fim de formas orgânicas. Os detalhes são simplesmente sólidos ou alterações cada vez menores.

Outra referência importante deste vídeo é um post do mestre Scott Robertson no Sijun Forums, site citado por muitos outros artistas como grande fonte de conhecimento. Você pode acessar o texto clicando aqui. E se você não conhece o trabalho do Scott, ele é o número 7 em nossa lista mais abaixo.

Neste post, ele apresenta sua metodologia para criação de sólidos de imaginação, sem depender necessariamente de referências. Este conteúdo mais para frente foi transformado em seu livro How to Draw (para qual fiz uma análise neste outro post). Ele sugere dois métodos de desenho, por construção "inside out", como ele chama, e de "subtração".

O primeiro seria o método construtivo propriamente dito onde você começa de um grid de perspectiva e vai construindo arcos e formas até chegar em um sólido complexo. Você pode ver este processo no vídeo abaixo. Vale ressaltar que foram muitos anos de estudos de caixas e sólidos simples para que ele pudesse adquirir estas habilidades.

Já o segundo se relaciona muito com o "poder das caixas", pois sugere que caixas sejam posicionadas em perspectiva e destas seja extraído o que não pertence ao que você quer desenhar. Por enquanto se você quer desenhar uma pirâmide, você pode começar por uma caixa e subtrair o que não for precisar. O mesmo vale para sólidos de quaisquer complexidades.

Este é um modo de libertar o artista das amarras do desenho de observação e utilizado em grandes escolas de arte e design, como Art Center College of Design e FZD. Talvez seja uma abordagem mais próxima do trabalho de um projetista do que de um ilustrador, mas que dará certamente ao segundo grande flexibilidade em suas criações.

Segue um exemplo de Scott onde vemos claramente suas linhas de construção em perspectiva. Apesar da perspectiva curvilínea, que complica um pouco mais a geração do grid inicial, podemos perceber como ele constrói tanto seus sólidos como suas sombras fazendo uso das mesmas ferramentas. Nas rodas, por exemplo, podemos visualizar facilmente uma caixa em torno de cada uma delas. Apesar de achar que o desenho destas começou de elipses, como no vídeo anterior, o que caracterizaria muito mais o método "inside out", poderíamos muito bem começar posicionando estas caixas para posteriormente extrair o que não fosse parte das rodas. Não importa o método, importa entender os conceitos e desenvolver esta percepção espacial que será útil em toda sua carreira como artista. 

Arte de Scott Robertosn

Arte de Scott Robertosn

A prática é outro elemento muito enfatizado por Rene Aigner em seu vídeo. Ele usa sua evolução como exemplo e adverte que simplesmente entender os conceitos sem aplicar não trará resultados. São todos conceitos muito simples na teoria, mas desenvolver esta sensibilidade espacial é algo que levará anos de prática, não se engane ao assistir profissionais desenhando. Scott também discute em seu texto a dificuldade de se plotar um grid correto de perspectiva. Resumindo, pratique muito, descubra novas ferramentas, experimente novos processos e desenvolva suas habilidades!

Com o tempo, você irá depender cada vez menos das caixas propriamente ditas, estas estarão intrínsecas no projeto, mas o que você desenhar estará corretamente posicionado no espaço tridimensional. O exemplo mais adequado desta questão é o mestre Kim Jung Gi, que explica no final deste vídeo ao lado (que já postei anteriormente no blog) seu processo de mentalização das caixas e linhas centrais dos objetos para posicioná-los corretamente em perspectiva.

Vamos aos exemplos de artistas para inspirar ainda mais os estudos de vocês. Tentei utilizar nesta lista principalmente exemplos de desenhos inorgânicos, ou que fossem mais fáceis de aproximarmos de sólidos e formas geométricas simples. É importante, ao navegar através destas referências, tentar entender o processo de cada um e como usam os conhecimentos dos fundamentos que discutimos para criar imagens de sua imaginação, nos mais diversos estilos e contextos.

Primeiramente, gostaria de usar como exemplo dois professores do curso de Dynamic Sketching da escola online CGMA. Este curso está muito em linha com o que discutimos até aqui. Eles são, Peter Han e Patrick Ballesteros

# 1 - Peter Han

Peter Han é concept artist e instrutor de referência no ensino de Dynamic Sketching e Visual Communication, tendo lecionado em renomadas escolas americanas. Seus métodos de desenho e de ensino são bastante fundamentados em caixas e sólidos geométricos simples. Para desenhos mais orgânicos, ele utiliza seus conhecimentos, percepção e técnica para replicar os conceitos para formas complexas, como é possível ver em uma de suas demonstrações da CGMA abaixo. Outro aspecto que ele valoriza muito é o controle sobre sua linha e seus materiais, dando ao caráter técnico exercícios específicos como vimos no post anterior.

Seguem o seu site e cursos, alguns vídeos sobre ele e alguns de seus trabalhos.

Arte de Peter Han

Arte de Peter Han

Arte de Peter Han

Arte de Peter Han

Arte de Peter Han

Arte de Peter Han

Arte de Peter Han

Arte de Peter Han

# 2 - Patrick Ballesteros

Patrick, apesar de ter um desenho bem estilizado, cita nos vídeos abaixo quão fundamental é o estudo da vida real, com todas as suas regras e construções, para o desenvolvimento de um desenho sólido. No vídeo "Reference and Storytelling Tutorial", é possível ver como ele utiliza imagens reais para criar desenhos estilizados.

Seguem também alguns de seus desenhos voltados para o realismo. É interessante perceber como ele utiliza linhas de guia, tanto no próprio desenho como através de uma base com marcador, para auxiliar no posicionamento do objeto no espaço e conferência das proporções.

Arte de Patrick Ballesteros

Arte de Patrick Ballesteros

Arte de Patrick Ballesteros

Arte de Patrick Ballesteros

Arte de Patrick Ballesteros

Arte de Patrick Ballesteros

Na sequência, alguns dos meus artistas preferidos e todos professores da escola Brainstorm School, de Burbank, Califórnia. John Park é provavelmente um dos artistas que mais influencia meu trabalho e meus estudos, assim como James Paick em suas pinturas fantásticas. Por fim, Eric Ng é professor do curso de World Building 1: Sketching, que tem como objetivo a implementação dos fundamentos da perspectiva e do design para o desenho de cenários, interiores e exteriores. Abaixo, um vídeo com os dois primeiros sobre suas carreiras e sobre o design para entretenimento. Tentarei abordar este vídeo separadamente quando for falar de design.

# 3 - John Park

John Park é concept artist freelancer e instrutor da Brainstorm e online, através de seu Gumroad e Patreon. Ele fez alguns dos tutorias que mais me identifiquei até hoje, além de ter um trabalho fantástico. Seguem abaixo dois vídeos sobre seus sketchbooks, produzidos por Scott Robertson para seu canal do Youtube, e alguns de seus desenhos. Vale a pena procurar e analisar com profundidade seus trabalhos.

Arte de John Park

Arte de John Park

Arte de John Park

Arte de John Park

Arte de John Park

Arte de John Park

Arte de John Park

Arte de John Park

# 4 - James Paick

James Paick também é concept artist freelancer e instrutor presencial e online. Seus tutoriais online podem ser encontrados também através do Gumroad e Patreon. Assim como John Park, ele estudou no Art Center College of Design, uma das escolas mais conceituadas do nosso mercado e famosa por forçar bastante o estudo dos fundamentos do desenho. Atualmente, ele trabalha principalmente com pintura digital, porém o desenho faz parte importante de seu processo. Abaixo alguns vídeos tutoriais de seu canal do Youtube e exemplos de seu trabalho.

Arte de James Paick

Arte de James Paick

Arte de James Paick

Arte de James Paick

Arte de James Paick

Arte de James Paick

# 5 - Eric Ng

Eric Ng também estudou no Art Center College of Design. Como dissemos anteriormente, ele leciona o curso World Building 1: Sketching na Brainstorm School, sobre o qual você pode ver um vídeo abaixo, seguido por alguns exemplos de seus desenhos.

Arte de Eric Ng

Arte de Eric Ng

Arte de Eric Ng

Arte de Eric Ng

# 6 - Ed Li

Ed é professor do curso Sketching for Environment da escola Concept Design Academy, na Califórnia (onde Peter Han e Patrick Ballesteros, que apresentamos no começo do post, também lecionam). Ele estudou também no Art Center e utiliza seus conhecimentos em design e fundamentos para desenvolver objetos e cenários para animações como A Princesa e o Sapo, da Disney.

Arte de Ed Li

Arte de Ed Li

Arte de Ed Li

Arte de Ed Li

# 7 - Scott Robertson

Como falei anteriormente, Scott Robertson é uma das principais referências atuais neste método de desenho e seu livro How to Draw é essencial para qualquer aspirante de desenho, ilustração e concept art.

Desta vez, como já temos bagagem deste e dos outros posts, vale analisar seus trabalhos com outra visão, tentando ainda mais desconstruir cada pensamento e cada linha feita por ele no papel. Alguns dos exemplos abaixo tem as linhas de construção bem visíveis, o que facilita muito para desvendar seu processo, tome uns minutos para tentar imaginar como o desenho foi construído. Para mais links sobre ele, acesse o outro post que fiz sobre seu trabalho, clicando aqui ou no link abaixo.

Arte de Scott Robertson

Arte de Scott Robertson

Arte de Scott Robertson

Arte de Scott Robertson

Arte de Scott Robertson

Arte de Scott Robertson

# 8 - Thom Tenery

Conheci o artista Thom Tenery através do livro How to Draw, onde seu trabalho é usado como exemplo. Depois fui descobrir que ele era responsável por uma peça artística que me impressionou muito quando a vi, esta aqui abaixo.

Arte de Thom Tenery

Arte de Thom Tenery

Mais um aluno do Art Center, Tenery demonstra nos desenhos abaixo enorme domínio dos conceitos de design, composição e principalmente perspectiva.

Arte de Thom Tenery

Arte de Thom Tenery

Arte de Thom Tenery

Arte de Thom Tenery

Arte de Thom Tenery

Arte de Thom Tenery

Arte de Thom Tenery

Arte de Thom Tenery

Arte de Thom Tenery

Arte de Thom Tenery

# 9 - Roy Santua

Mais um aluno do Art Center, Roy também aparece como destaque e exemplo no livro How to Draw, de Scott Robertson. Ele tem inúmeros exemplos de desenhos nos mais diversos estilos em seu site, vale a pena conferir e analisar seu processo de pensamento na construção dos mesmos. Neste primeiro desenho, é bem visível como ele utiliza sólido geométricos simples como base em suas criações.

Arte de Roy Santua

Arte de Roy Santua

Arte de Roy Santua

Arte de Roy Santua

Arte de Roy Santua

Arte de Roy Santua

Arte de Roy Santua

Arte de Roy Santua

É importante percebermos aqui que o aparecimento do Art Center College of Design tantas vezes se deve muito ao fato da escola forçar e cobrar bastante o estudo dos fundamentos do desenho, principalmente da perspectiva. Estes são então aplicados para o design de objetos que serão produzidos, fisicamente ou digitalmente, para serem inseridos em peças de entretenimento ou produtos comerciais, sendo assim existe um processo de construção intrínseco no desenho, como dissemos antes que se assemelha mais ao trabalho de um projetista.

Ainda farei no futuro análises focadas nos cursos de Ilustração e Design de Entretenimento desta grande universidade para tentarmos entender um pouco mais de como eles estruturam o estudo por lá.

# 10 - Vaughan Ling

Vaughan Ling é um grande exemplo desta proximidade a um projetista, tendo além de um fantástico trabalho de desenho, habilidades muito desenvolvidas na modelagem 3D. Estas duas mídias, assim como a construção física de objetos, conversam muito uma vez que você assume este processo de desenho que discutimos. Aprender 3D então é muito mais natural para quem desenha desta forma, assim como quem desenha desta forma tem muito mais facilidade no 3D.

Arte de Vaughan Ling

Arte de Vaughan Ling

Arte de Vaughan Ling

Arte de Vaughan Ling

Arte de Vaughan Ling

Arte de Vaughan Ling

# 11 - Feng Zhu

Feng Zhu é um dos maiores entusiastas e disseminadores da importância dos fundamentos do desenho. Sua escola FZD é famosa por cobrar, principalmente no primeiro Term, a prática exaustiva de perspectiva e técnicas de comunicação visual com dificuldade gradual. Fiz uma análise para cada um dos Terms do programa de um ano da escola que você pode acessar pelos links abaixo. Vale a pena estudar tanto o desenho do Feng, quanto o de seus alunos e o conceitos que ele apresenta na escola, principalmente se você vislumbra posições de design para filmes e jogos.

Arte de Feng Zhu

Arte de Feng Zhu

Arte de Feng Zhu

Arte de Feng Zhu

Arte de Feng Zhu

Arte de Feng Zhu

# 12 - Carlos Luzzi

Carlos Luzzi é outro mestre que já apareceu no Brushwork Atelier inúmeras vezes e não canso de recomendá-lo por enfatizar o aprendizado dos fundamentos do desenho. Seu curso atualmente acho um dos mais voltados para o campo que discutimos aqui e o que mais se aproxima de cursos amplamente difundidos no exterior, como dynamic sketching e visual communications.

Estes são somente alguns poucos exemplos que vieram a cabeça, é importante que você esteja sempre atento a guardar nomes e artes para referências e para tentar desconstruir visualmente os processos dos seus artistas favoritos, seja através de tutoriais dos mesmo ou através de linhas e rastros deixados do processo.

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