Pintura Digital - Como você pode começar do zero de forma eficiente

Neste post, vamos discutir como você pode começar a estudar pintura digital de forma eficiente, porém, para isso, precisamos entender primeiramente o que é pintura digital e o que compõe o estudo desta mídia.

Vamos dividir a análise então em quatro grandes blocos:

  • O que é Pintura Digital?
  • Fundamentos a serem estudados
  • Ferramentas de Pintura Digital
  • Livros, tutoriais, cursos e Clube Brushwork Atelier

O que é Pintura Digital?

Vamos começar com uma questão: você acha que esta pintura abaixo é tradicional ou digital? Tradicional, certo? Parece uma daquelas pinturas que vemos em museus.

 Arte de Karla Ortiz

Arte de Karla Ortiz

Por incrível que pareça, esta é uma pintura digital, feita pela artista Karla Ortiz.

Mas como ela fez isso? Manipulação de foto? "Ah, então ela fez no computador. Então, "tudo bem"", tenho certeza que você já ouviu algo parecido ou até mesmo pensou isso. Vamos então ver um pouco do processo neste gif abaixo:

 Arte de Karla Ortiz

Arte de Karla Ortiz

Olha, não é que ela desenho/pintou tudo?!

Nesse post do link abaixo ela descreve o processo de elaboração desta pintura:

http://karlaortizart.blogspot.com.br/2013/04/teysa-envoy-of-ghosts-process.html

Tudo começou com um pequeno briefing descrevendo uma mulher de uns 30 anos, inteligente, precisa, magnética e implacável. Seu entorno seria algo entre um escritório de advogado e o covil de um necromante. Um quarto cheio de pergaminhos, objetos estranhos, tomos e em algum lugar escondidos os espíritos que a rodeiam.

Depois de pesquisar referências de clima e iluminação em filmes como Amadeus, Black Narcissus, Harry Potter, Senhos dos Anéis e Gladiador, ela partiu para uma série de estudos de composição, linear, tonal e cromática, para melhor compreender como retratar esta ideia/tema. Estes são pequenos desenhos, assim como você faria no papel, seguidos de alguns estudos de paletas de cor, assim como você faria para uma pintura a óleo. James Gurney discute bastante este processo em seu livro Imaginative Realism, vale a pena conferir também.

 Arte de Karla Ortiz

Arte de Karla Ortiz

Em sequência, o trabalho vai tomando forma, o desenho vai sendo refinado, formas vão ganhando vida e elementos vão ganhando definição e indicação de materiais. Tudo isso sem tentar perder a expressividade dos pequenos estudos anteriores.

 Arte de Karla Ortiz

Arte de Karla Ortiz

E depois de muitas e muitas alterações, consertos, redesenhos, o trabalho final vai se aproximando. Este é um dos pontos em que a pintura digital apresenta grandes vantagens, mas voltaremos nesta questão mais para frente.

 Arte de Karla Ortiz

Arte de Karla Ortiz

Você viu alguma grande diferença para o processo tradicional? Eu não vi, apesar do fato que no final temos um arquivo digital ao invés de um produto físico. A pintura digital nada mais é do que uma forma de pintura como outra qualquer, porém utilizando uma ferramenta digital, isto é, no lugar de tintas e pincéis, tudo será feito digitalmente, movimentando e alterando pixels na tela do computador, tablet ou celular.

Mas o que é pintura? Vamos parar um momento para refletir sobre este tópico. Busquei algumas referências diferentes para discutirmos. A primeira é o artista e acadêmico Chris Solarski, que publicou um livro, link ao lado, sobre a importância da aplicação dos fundamentos artísticos e desenho básico nos vídeo games.

Para ele, toda imagem é composta de Linha, Shape (formas bidimensionais), Volume, Valor e Cor. Volume na verdade, será sugerido pela combinação de shapes de valores diferentes em posições e sequências lógicas, assim como a relação de transição entre estes. Se uma transição for suave, teremos a sensação de um volume mais arrendondado, se tivermos uma transição mais ríspida, dará a sugestão de uma quina. Estas transições são chamadas tecnicamente de Bordas. Veremos mais pra frente que as bordas não necessariamente se restringem a um só objeto, mas sim nas relações de shapes na imagem.

O pintor tradicional Richard Schmid, trás em seu livro Alla Prima (uma bíblia da pintura para o qual fiz uma review no Youtube, abaixo) uma definição muito interessante de uma pincelada.

    Esta seria composta por quatro elementos:

    • Desenho
    • Valor
    • Cor
    • Borda

    Desenho pode ser abstraído para shapes nos formatos certos nos lugares certos, cada um com seu valor e cor específicos e as transições entre eles serão as bordas. O canal do Youtube do Proko também fez um vídeo muito interessante sobre os elementos básicos do desenho que inclui estes quatro elementos, vale a pena dar uma olhada:

    O Mike Azevedo também fez uma transmissão ao vivo um tempo atrás para explicar as alterações na estrutura do seu curso, porém mais que isso ficou uma grande aula sobre os fundamentos da pintura digital e seu aprendizado.

    Para ele, o processo de aprendizado de desenho e pintura é algo cíclico, que você vai aprendendo os tópicos, como anatomia, iluminação, cores, gestual, etc, mas irá sempre retornar aos mesmos conceitos depois de ciclos. No momento deste retorno, para começar um novo ciclo, você terá toda uma experiência acumulada e poderá ver os tópicos com uma perspectiva diferente. Assim, você está sempre evoluindo mas retornando, processo para o qual ele utiliza a analogia de uma mola.

    E quais tópicos ele estruturou no curso dele? Luz, cores, composição, brushes/bordas, materiais e também a aplicação disso em sketches de imaginação e qual a mentalidade para abordar os estudos.

    Além disso tudo, ele diz que seu curso não aborda os conceitos de desenho, que para ele também são extremamente importantes para a base da pintura digital: anatomia, gestual, formas, perspectiva, dentre outros.

    Uma última referência interessante para analisarmos foi um post que fiz sobre realismo na pintura, baseado principalmente em questões levantadas pelo artista Jonathan Hardesty. Hardesty divide seu ensino de pintura em 4 etapas: Proporções, Valores, Cores e Bordas, ambas abordadas de duas formas diferentes, primeiramente observação e compreensão e posteriormente a manipulação. Segue o link:

    http://brushworkatelier.com/blog/desenho-realismo

    Vamos analisar agora cada um destes elementos separadamente e como podemos estuda-los para melhorar nosso trabalho.

    Fundamentos a serem estudados

    Lembrando que esta é somente uma pequena introdução a este tópico e cada um destes conceitos daria pelo menos um post para discuti-los de forma adequada. Para realmente masteriza-los, aí vão anos de estudos.

    Desenho

    O desenho é peça fundamental para uma pintura, sendo responsável pela leitura dos elementos nela contidos, seus formatos. Um exemplo que podemos utilizar é a pintura da Karla Ortiz no começo do post, a personagem, suas roupas e todos os elementos que compõe a cena tem um desenho que os representa, "símbolos" ou formatos bidimensionais/shapes que descrevem cada uma de suas partes e que juntos dão a leitura de figuras ou objetos. É um conceito um pouco diferente do desenho de linhas, que normalmente não estará presente na pintura, especialmente na realista.

    Sobre como estudar desenho, discutimos esse tema em diversos posts aqui do blog, vou deixar alguns links para vocês conferirem:

    Mas como representamos então o desenho na pintura? Este vídeo abaixo é uma ótima introdução ao tema. Para o Marco Bucci, o que pintamos na verdade é a luz e os formatos que ela e as sombras fazem nos objetos, representando assim o desenho através dos shapes de valor e cor.

    Valor

    Mas o que é valor? Já discutimos isso brevemente em outros posts sobre desenho, porém vamos aprofundar um pouco aqui. Valores são tons de cinza, do branco ao preto, que são a base de como vemos o mundo a nossa volta, como definimos formas, profundidade e texturas. São comumente utilizados para descrever a incidência de luzes em objetos, como apresentado neste vídeo abaixo pelo Proko.

    Mas como podemos ver neste outro vídeo, do Anthony Jones (para mim um dos melhores sobre o tema), são a base para a representação na pintura, muito além da própria cor. Relações de valor influenciam na leitura da imagem, seu clima geral e também o quão críveis serão. Veja como AJ apresenta imagens com e sem cor para enfatizar essa questão.

    Para aprender a manipular valores, assim como para manipular cores, precisamos primeiramente aprender a vê-los. Seguem algumas referências muito interessantes sobre o assunto:

    Relembrando que este processo levará tempo, então não tenha pressa e aproveite seu aprendizado.

    Cor

    Não só de valores se faz a luz, seja ela natural ou artificial. Sendo assim, temos que entender como as diferentes cores de luzes interagem com diferentes cores locais de objetos e pessoas, como suas intensidades influenciam na iluminação e sombras e como diferentes superfícies viram também focos de luz através do rebatimento. Podemos começar, como já falamos, através da observação, como nestes exemplos abaixo:

    E depois ir compreendendo melhor as cores e suas relações. Vou listar aqui alguns dos melhores conteúdos que conheço sobre o tema:

    Outro grande conteúdo para mim são os vídeos e tutoriais do Mike Azevedo. É muito interessante como ele pensa a influência da luz nas cores locais através do círculo cromático.

    https://gumroad.com/mikeazevedo

    Outra grande referência é o artista Sam Nielson, ambos os seus cursos na Schoolism são maravilhosos para o entendimento da luz. Os links estarão no final do post.

    Além de aprender os conceitos físicos da luz, também é interessante entender os fatores psicológicos e sua influência em como vemos uma imagem. Relações de temperatura, harmonias, complementares e contrastes serão muito importantes para manipular o que queremos transmitir em uma pintura. Seguem mais alguns vídeos fantásticos sobre o tema:

    Nestes outros abaixo, vemos a discussão sobre cores vibrantes e também a utilização de diferentes temperaturas em uma pintura por Nathan Fowkes, outro artista com cursos maravilhosos sobre cor e pintura na Schoolism.

    Aprender a ver, representar e manipular cores é mais um processo que levará anos. Uma grande aliada nesta busca será a pintura de locação, ou ao ar livre, ou ainda plein air painting. Este é um processo que é citado por grandes artistas do mercado de entretenimento como de grande influência em sua compreensão da luz natural, em diferentes horas do dia e diferentes estações do ano. Seguem alguns vídeos interessantes do artista James Gurney e da Tonko House:

    Materiais

    Ok, entendemos que diferentes cores e intensidades de luz terão influências diferentes dependendo das cores locais do objeto. Porém, também precisamos lembrar que diferentes superfícies e materiais também terão diferentes interações com a luz. Metais irão refletir mais luz e a sua orelha deixará mais luz atravessar por dentro dela. Como cada um destes materiais vai se comportar irá alterar drasticamente os resultados da pintura. Assim como nos elementos anteriores, para os materiais temos uma parcela de observação, como demosntrado no vídeo abaixo:

    Mas também uma parcela de entendimento e seleção, como nestes outros:

    Alguns destes vídeos são de professores da Schoolism, Sam Nielson e Jonathan Hardesty. Em seus cursos eles vão muito mais a fundo nos tópicos, discutindo até mesmo a física por trás de cada material. Nestes outros vídeos abaixo, vocês podem ver feedbacks dos artista Bobby Chiu e Tonko House e como ele trabalham a questão de contraste de valores, cores e também de sugestão de materiais.

    Para representar bem materiais em suas pinturas de imaginação, vocês terão que desenvolver bastante a sua biblioteca visual (seja através da compreensão ou da percepção) e também fazer pesquisas de referências quando forem fazer um projeto novo. Discuti mais a fundo estes tópicos em alguns posts do blog, abaixo. Uma grande ferramenta de aprendizado são os estudos de natureza morta (still life) como vocês podem ver nos posts de referências.

    Biblioteca Visual

    Referências

    Fiz um vídeo interessante também sobre o processo de aprendizado e o uso de referências de materiais do artista Mike Azevedo e o que eu aprendi com sua trajetória:

    Bordas

    Para mim, este é um dos conceitos mais difíceis de se aprender e também de se masterizar, não existem muitas regras e muitas das decisões serão baseadas na percepção e intuição. Assim o engenheiro em mim pira! Diferentes tipos de bordas, duras, suaves, perdidas (lost), serão responsáveis por definir pontos de interesse, enfatizar contrastes, dar fluxo de leitura nas imagens e até sugerir materiais sem necessariamente descrevê-los. Seguem alguns vídeos bacanas do site Ctrl+Paint:

    Nathan Fowkes diz que uma grande forma de praticar o trabalho de bordas é no retrato da figura humana. O que vamos descrever, o que vamos sugerir e o que vamos simplesmente deixar de fora? Bem interessante ver a forma como ele trabalha estas questões nos vídeos abaixo:

    Este trabalho de desenvolvimento da percepção das bordas e fluxo da leitura irá conversar muito com nosso próximo tópico.

    Composição

    Os shapes ou formas bidimensionais não terão somente a função de descrever objetos e figuras, mas também terão importante papel no fluxo da leitura e também no interesse gerado pela peça como um todo. Estes dois vídeos abaixo são muito didáticos sobre o tema, mesmo com a possível barreira da língua. Assim como o tópico de bordas este também é outro daqueles que não tem muito direcionamento racional e depende muito mais da percepção e intuição. Portanto é uma questão de muita análise de como outros artistas resolvem e também muita prática. Uma coisa que percebi conversando com alguns artistas como o Mike Azevedo é o uso de muitos triângulos em suas imagens para gerar esse interesse na leitura.

    Os shapes em si são pequenas composições, como podemos ver no caso das silhuetas, elas tem que funcionar por si só. Quem discute muito bem estes temas é o artista James Gurney em seu livro Imaginative Realism. Numa visão macro, a forma como linhas e  shapes são posicionados, seus diferentes valores e cores e as bordas que os conectam dirão muito sobre o clima geral da imagem e a mensagem sendo passada. Outras questões muito importantes de composição incluem Unidade, Variedade, Ritmo, Clareza, Contrastes, Ponto Focal e Gestalt. Cada um tem suas peculiaridades a serem estudadas e praticadas. Vamos ver alguns outros conteúdos interessantes sobre composição:

    Vale o comentário de tomarmos cuidado com as fórmulas prontas como a "regra dos terços" e proporção áurea. Como diz o artista Craig Mullins, elas são pontos de partida interessantes, mas na verdade não existem regras e quem vai ditar se algo está funcionando ou não será a percepção. Ele diz isso especificamente sobre o livro do Edgar Payne, ao lado, adotado por muitos como uma "bíblia" da composição. 

    Outro ótimo exemplo de literatura focada na composição, seja linear, tonal ou cromática, é o livro Creative Illustration, do Andrew Loomis. Mais uma vez, vamos considerar esse um ponto de partida para diversas discussões e aprendizados.

    Compre o livro Creative Illustration através do link: http://amzn.to/2vcdG3D

    Além da composição, o livro também introduz uma das questões mais importantes da prática de ilustração, se não a mais importante, contar histórias.

    Storytelling

    Não tenho como falar de storytelling sem citar Iain McCaig, um dos maiores entusiastas de histórias no nosso meio. Seguem dois vídeos de entrevistas dele e um post que fiz:

    Iain McCaig e o sonhar sobre o papel - http://brushworkatelier.com/blog/2015/7/7/iain-mccaig-e-o-sonhar-sobre-o-papel

    Podemos aprender muito sobre composição e storytelling do cinema e artes sequenciais, que precisam transmitir mensagens e emoções em poucos segundos, como podemos ver nestes dois vídeos (o segundo é parte de uma série de 7 episódios):

    Busquem um pouco mais sobre cinematografia, escolha de câmeras, ângulos e iluminação e como trabalhar com estes elementos e posicionamento dos elementos para transmitir mensagens. Coloquei algumas referências de livros no final deste post. Também podemos aprender muito com a fotografia.

    Ferramentas de Pintura Digital

    Assim como podemos ver nos vídeos abaixo, diferentes materiais terão diferentes forças, fraquezas, aplicações e peculiaridades.

    Seja no tradicional ou digital, temos que aprender sobre nossas ferramentas de trabalho para extrair o máximo das mesmas. No digital, estamos falando de mesas digitalizadores e softwares de pintura e tratamento de imagens (além de alguns outros que discutiremos depois).

    Photoshop + Wacom

    O software certamente mais utilizado por pintores digitais é o Photoshop, seguido de longe pelo Painter e talvez hoje em dia até pelo Procreate no iPad. Quanto as mesas digitalizadoras, a Wacom é disparada a marca dominante no mercado, muitos anos atuando praticamente como um monopólio. Hoje em dia temos algumas outras opções como a Huion e o próprio iPad, que já é usado para trabalhos inteiros por artistas como o Mike Azevedo.

    Existem inúmeros modelos de tablets e acredito que no longo prazo cada um de vocês irá encontrar o que mais te agrada, tendo experimentado de amigos e/ou em eventos. Para começar, acredito que uma bem simples como uma Intuos Draw pequena ou média seja o suficiente. Você vai sentir algumas restrições? É possível, porém muito do que você vai ter que aprender são conceitos então estas restrições não serão o gargalo do seu aprendizado e sim sua motivação e trabalho duro.

    O Photoshop também tem uma série de ferramentas a serem aprendidas, porém dentre elas acho que as três principais para começar são os brushes ou pincéis, borrachas e layers ou camadas. Seguem alguns vídeos do site Ctrl+Paint e do Feng Zhu discutindo estes tópicos:

    Com relação aos brushes chegamos a duas grandes questões. A primeira delas é a grande questão "Que brush você usa?", sempre levantada durante lives de pintores digitais famosos. A resposta que normalmente é dada para esta pergunta é "os brushes não fazem diferença", o que é verdade, mas também é mentira. É verdade porque como vimos até aqui, em pintura digital estamos falando de conceitos, luz, cores, composição, isso está muito mais ligado a sua cabeça, seu conhecimento, sua percepção, intuição e biblioteca visual do que com a ferramenta que você usa.

    Porém também é mentira porque assim como no meio tradicional, diferentes ferramentas podem levar a diferentes resultados se utilizados da forma correta. Cada um vai ter formas diferentes de utilizar estes diferentes "pincéis", então é interessante sim você buscar sets ou kits de artistas conhecidos e experimentar se estes fazem sentido para você. Os do artista Sergey Kolesov, também conhecido como Peleng, são muito utilizados por artistas e você pode baixa-los nesse link: http://digitalbrushes.tumblr.com/post/57903649910/pelengsergey-kolesov-photoshop-brushes-download

    Como você vai utilizar estes pincéis, onde vai definir mais sua pintura, onde vai só sugerir, que tipo de pinceladas dará, define muito quem você é como artista, sua confiança com relação ao processo e também com as suas habilidades. É o famoso "brushwork" ou trabalho de pinceladas, e eu claramente não poderia deixar de comentar. Este é um conceito muito valorizado no meio artístico e você vai ver muitas pessoas comentando por exemplo do brushwork utilizado por John Singer Sargent em suas pinturas e a forma como sugeria muito com pouco.

    Assim como na tinta tradicional, você também pode fazer misturas de "pigmentos" digitalmente. Este é um processo bastante utilizado por quem quer dar um visual de pintura tradicional ou até mesmo aprendeu nesta mídia antes de ir para o digital. Existem até algumas ferramentas do Photoshop para facilitar estas misturas.

    Talvez a maior vantagem da pintura digital seja a possibilidade de utilizar layers ou camadas e poder trabalhar individualmente cada uma delas em qualquer momento da pintura. Alterações, correções e até reutilização de elementos é extremamente simples e rápido, principalmente se você mantiver uma organização mínima das suas camadas. Cada um vai ter uma forma diferente de trabalhar com elas.

    Demonstração do Ctrl+Paint:

    Também existem algumas funcionalidades das camadas que podem ajudar no processo de iluminação de suas pinturas. Quem usa alguns destes processos é o artista Mike Azevedo, como podemos ver nestas demonstrações abaixo.

    A forma como você vai lidar com seu processo, como vai utilizar brushes, layers e outras funcionalidades é muito pessoal, por isso você deve aprender com váriaos artistas diferentes para ver o que se encaixa melhor para você. Seguem dois outros exemplos, agora dos artistas Scott Robertson e Martin Deschambault:

    Outra funcionalidade muito interessante do meio digital é a possibilidade de interação com outras mídias, como a fotografia e a modelagem 3D. Vamos discutir um pouco estas duas.

    Fotografia

    O fato de hoje em dia termos muitas imagens digitais a nossa disposição, sejam tiradas com nossas câmeras e celulares ou buscadas na internet, permite que as usemos das mais diversas formas possíveis em nossa arte digital. Seja como forma de referência, assim como vimos anteriormente:

    Pintando diretamente sobre a foto:

    Ou utilizando-as como texturas:

    Esta última é peça super importante do processo de concept art e keyframe illustration, na etapa de pré-produção de muitos filmes, séries e jogos. Também é utilizada no Matte Painting, técnica de pós-produção de filmes e séries, falaremos mais sobre este tópico mais para frente.

    3D

    Também é possível simular processos semelhantes aos que o artista James Gurney sugere em seu livro Imaginative Realism, utilizando a modelagem 3D no lugar das maquetes físicas.

    Este é um processo cada vez mais utilizado na pré e pós-produção de filmes e jogos.  Não importa qual seja o software, como nestes exemplos abaixo utilizando SketchUp, Modo e Zbrush. A realidade virtual também vem ganhando bastante força como ferramenta de produção, utilizando muitos dos fundamentos da pintura digital.

    Matte Painting

    Conhecida como a "arte invisível", o Matte Painting é um processo de substituir elementos de filmagem e renderização por uma combinação de modelagem e renderização 3D com pintura digital e foto manipulação, mais ou menos como nestes exemplos abaixo. Para que não seja percebido pelo público, as imagens/pinturas tem que se aproximar muito do restante da cena, ou do fotorealismo no caso de filmes e séries live action. 

    Usar ou não usar ferramentas?

    O que vai tornar uma obra de pintura digital bela ou não depende muito de como você vai utilizar tudo que falamos até aqui. "Parecer foto" muitas vezes é super valorizado pelo leigo, mas não é nem de longe a única forma de resolver bem uma pintura.

    Eu levantei algumas questões sobre isso no post sobre realismo, postado lá para cima aqui no texto, e também nestes outros dois posts com base em um vídeo do artista Andrew Maximov:

    Um ponto importante para fechar essa discussão sobre pintura digital é algo que ouvi do artista Alberto Mielgo uma vez e ficou bastante marcado. Pintura digital não precisa necessariamente emular mídias tradicionais, como muitas vezes tendemos a fazer. O digital deve ser explorado em todas as suas possibilidades, forças, fraquezas, aplicações e peculiaridades. Seja curioso com o processo e encontre a estética e processos que mais se encaixam para o que você quer. Segue um exemplo da arte do grande Alberto Mielgo, porque não sei como terminar melhor que isso:

    Livros, tutoriais, cursos e Clube Brushwork Atelier

    Como sempre digo, vivemos em uma época privilegiada de acesso a informação. Seguem então alguns dos meus recursos preferidos para buscar mais informações sobre estes tópicos:

    Livros

    Luz e Cores

    Pintura

    Composição e Cinematografia

    Ilustração e Storytelling

    Muitos destes livros tem reviews na Playlist do Canal do youtube do Brushwork Atelier. Segue o link: https://www.youtube.com/watch?v=LgztjHDczS8&list=PLb6VOGXAYVXn4Y5eLFp7_L-3AhZ-bmgDW

    Cursos e Tutoriais

    Seguem alguns cursos e tutoriais interessantes sobre pintura digital:

    Ctrl+Paint (https://www.ctrlpaint.com/)

    ICS (http://www.ics.art.br/)

    Schoolism (https://www.schoolism.com/)

    Gumroads e Patreons

    Clube Brushwork Atelier

    Vamos estudar estes tópicos juntos? Aqui no blog seria inviável aprofundar em muitos dos conceitos apresentados, assim como estudar alguns dos livros recomendados. No Clube Brushwork Atelier, estamos aos poucos fazendo isso em grupo e sob minha curadoria. Conteúdos como os livros How to Render e Color and Light são exemplos de materiais sendo discutidos por lá.

    Mais informações em: http://brushworkatelier.com/clube

    Resumo

    • O desenho é um dos elementos mais importantes de uma boa pintura. Como diz o Mike Azevedo, um bom desenho pode acabar se tornando uma pintura ruim porém um desenho ruim nunca se tornará uma pintura boa.
    • Os fundamentos da pintura que você terá que aprender são basicamente: Luz, Cores, Bordas, Materiais, Composição e Storytelling. Agora para realmente dominar cada um destes levará anos de prática, revisão dos erros e revisitar sempre os fundamentos depois de ciclos de aprendizado.
    • Cada ferramenta, seja tradicional (carvão, óleo, aquarela, etc) ou digital, tem suas forças, fraquezas e peculiaridades. Tome o tempo necessário para dominar as suas ferramentas de escolha e não deixe que a falta de habilidade com as mesmas prejudiquem seus resultados.
    • Você não precisa necessariamente utilizar o meio digital para emular a pintura tradicional, explore diferentes possibilidades de processo e de estéticas. Não tenha preconceitos com relação ao uso de diferentes técnicas e atalhos.

    Obrigado por ter lido!

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    Muito obrigado por acompanhar e bons estudos!