Nunca deixe de lado o seu eu verdadeiro...

Setembro de 2017 certamente deixará saudades. Tive a oportunidade de participar de dois eventos internacionais sobre arte para entretenimento, o Industry Workshops e o Trojan Horse was a Unicorn (THU). Eu sigo o THU há alguns anos via internet, tendo postado a respeito no passado (você pode ler o post clicando aqui) e até entrevistado o fundador do projeto, André Lourenço, neste vídeo que você pode conferir abaixo, mas nunca tinha tido a oportunidade de estar lá pessoalmente. Então certamente este teve um peso maior para mim.

Em ambos os anos que comprei o THUTV, cobertura virtual do evento, aprendi algo novo, seja em palestras com alguns dos meus ídolos, conhecendo novos artistas para seguir e absorvendo ideias para refletir. Desta vez, não foi diferente, porém de uma forma muito mais intensa e também mais madura. É bem difícil traduzir em palavras o que aprendi e do que ainda vou buscar depois desta experiência, mas tentarei ao máximo deixar claro o que entendo até este ponto. E a palavra experiência realmente cabe bem aqui, pois ir a grandes eventos e especialmente ao THU é muito mais do que uma coletânea de palestras e estandes. Mas vamos com calma.

Uma coisa que eu sabia que não queria fazer era mais um post de cobertura do evento, o time do André já faz um trabalho fantástico, assim como muitos outros artistas que estiveram por lá. E não é por falta de conteúdo, porque como passei um mês fora, muita coisa aconteceu, vi muitas pessoas fantásticas, palestras com os maiores nomes do mercado, de concept artists de Game of Thrones a executivos de grandes empresas, passando por fine artists que dedicaram suas carreiras inteiras às suas práticas. Vi obras impressionantes de perto, especialmente de Peter Paul Rubens, Anthony van Dyck e Sir Lawrence Alma Tadema.

São experiências tão surreais que seria fácil dizer que a viagem foi ótima, que estava de volta 100% motivado, fazer um grande post superficial e mostrar um bando de fotos bacanas, mas não estaria sendo totalmente sincero tanto comigo quanto com a comunidade artística. Algo estava remoendo dentro de mim e eu demorei um tempo para entender melhor. Quando fui a CTNx, aconteceu algo parecido, mas talvez eu ainda não tivesse maturidade o suficiente para entender e estava em um momento em que algo mais superficial era importante para o meu projeto. Desta vez, resolvi ir ao THU com o chapéu de artista e não de criador de conteúdo, com a cabeça aberta para tentar entender melhor onde eu me posiciono e depois tentar destilar um pouco do que aprendi em um texto. Sendo assim, prepare-se, este vai ser um texto bastante introspectivo e sincero sobre minhas aspirações artísticas. Ele não é uma representação dos eventos em si, mas do que pode significar esta experiência.

Um dos bordões do Trojan Horse (THU) é "Are you ready to be transformed?" (Você está pronto para sofrer uma transformação?) e apesar ter achado fantásticas muitas das palestras e conteúdos do THUTV, não entendia direito o que isso significava. Para ser bem sincero, por vezes achava meio "arrogante", um evento se achar no poder de "transformar" alguém. Depois de retornar eu fiquei com isso na cabeça, será que fui transformado de alguma forma? E fui aos poucos entendendo o que aquilo queria dizer para mim, mas nunca encontrando as palavras certas para descrever o que estava sentindo.

Claro que encontrar os seus ídolos já pode ser transformador o suficiente, como conversas que tive com Iain McCaig neste evento das quais não esquecerei nunca mais, mas apesar disso, acho que existe uma certa desconexão entre você e os outros artistas e é quando aplica o que está aprendendo que realmente reflete sobre quem você é e o que deve fazer daqui para frente. Segue uma arte do Iain para inspirar a leitura de todos:

 Arte de Iain McCaig

Arte de Iain McCaig

Depois de refletir sobre isso tudo, vejo com um pouco mais de clareza que alguns pontos "altos" da minha viagem me definem como pessoa. Em uma palestra do THU aprendi um conceito que gostaria de dividir com vocês e que usarei como base para esta conversa.

O conceito chamado de "adrenaline moments" foi apresentado pelo ator, professor e escritor Ed Hooks. E o que são estes momentos de adrenalina? Segundo ele, quando temos alguma experiência muito chocante em nossa vida, que tenha alguma relação com a sobrevivência da espécie, temos um pico de adrenalina que nos ajuda a guardar de forma mais intensa estas memórias, para consultarmos em situações semelhantes no futuro. Estas experiências podem ser positivas, como o seu primeiro beijo, passar no vestibular ou um novo emprego, ou negativas, como uma grande tragédia, um grande susto ou um momento de humilhação, por exemplo. Este conceito por si só acho que já vale ter lido este post até aqui, pois segundo ele, faz parte da vida de qualquer contador de histórias refletir sobre seus próprios momentos de adrenalina e como você pode traduzi-los em seus personagens. Acrescento também a reflexão de como eles impactam o restante da sua vida e dos seus objetivos.

Durante a viagem, várias memórias ficaram bem mais frescas e intensas que outras e portanto acho que posso chama-las de pequenos "adrenaline moments" que tem alguma ligação diferenciada com o que acredito ser bom para mim. Vou utilizar alguns deles como guias para tentar demonstrar como foram acontecendo minhas reflexões e o que aprendi com isso.

Londres e Industry Workshops

Os primeiros dias de viagem já foram bastante corridos e muito aconteceu no Industry Workshops, pulando de palestra em palestra, conhecendo novas pessoas, afinal eu era o único brasileiro que conhecia no evento (se alguém que está lendo isso estava lá, me procure, vamos trocar umas figurinhas). É um evento bem diferente do que tinha visto na CTNx e do que iria ver no THU. A primeira impressão foi de alívio, um evento mais maduro, um pouco diferente da abordagem um tanto infantilizada que vejo muitas vezes na comunidade artística, principalmente no Brasil. Tinha sentido este clima vendo videos de eventos como o da Massive Black (ao lado) ou Sixmorevodka (abaixo) no passado e foi muito bacana encontrar um clima semelhante no IW. Segue os vídeos que citei:

Outro ponto interessante foi ver que muitas das pessoas que estavam lá são inglesas, ou pelo menos de regiões muito próximas como o Reino Unido e outros países da Europa. O evento não é tão conhecido mundialmente e muitos lá não conheciam o THU, por exemplo. O que acho interessante nisso é ver como tem gente muito boa em pequenos nichos ao redor do mundo. Destes certamente sairão grandes nomes que nunca ouvimos falar antes. Isso da uma sensação de pressão misturada com curiosidade e ansiedade do que está por vir no futuro.

As palestras foram muito boas, incluindo artistas das mais diversas áreas, ficava muito complicado escolher para onde ir. Este aqui embaixo é o cronograma, só para vocês terem uma ideia:

Retirada do Facebook do Industry Workshops

Uma das palestras mais marcantes para mim foi a do artista Even Mehl Amundsen, com quem tive o prazer de desenhar e conversar durante primeiro dia do evento.

Foto por Rob Davies

O que mais me impressionou foi o nível de profundidade com o qual ele estuda a história da idade média, principalmente o tópico de armaduras, e como isso se aplica e eleva seus trabalhos ao nível que tem. Foi um daqueles momentos que nos questionamos o quanto realmente sabemos sobre os tópicos que queremos desenhar e se realmente estamos aptos a criar algo novo nestes contextos. Posso dizer que este foi um dos meus principais questionamentos levantados no evento.

Também achei interessante como o Even não tinha ideia do quão ansiosos muitos do evento estavam para vê-lo, algo semelhante ao que vi acontecer com Craig Mullins no THU 2015, em escalas um pouco diferentes. Vale a reflexão de que o quanto mais mergulhamos em um tópico e em sua prática e aplicação, menos estamos conscientes dos nossos entornos e consequentemente menos alimentamos nosso ego.

Outro momento importantíssimo do evento para mim foi uma sessão de modelo vivo com animais, organizada pelo projeto Wild Life Drawing, que ocorreu já no primeiro dia. Há muito tempo eu não me reconectava com o desenho dessa forma, simplesmente pelo prazer de desenhar e não com um fim em mente, uma carreira, uma postagem, seja o que for, foi desenhar por desenhar. Segue uma foto da sessão:

Foto por Rob Davies

Desenhar ao lado de tanta gente boa também é sensacional, incluindo o Even duas cadeira para a minha direita. Ao mesmo tempo é legal também perceber que todos estavam com uma postura super humilde diante de uma das nossas modelos, que você pode ver na foto abaixo:

Foto por Rob Davies

É fabuloso estar tão perto de um animal destes e poder desenha-lo. É difícil colocar em palavras o que eu senti, mas acredito que esse foi o primeiro grande aprendizado da viagem, voltar a me envolver com o desenho de animais. A quem interessar, segue abaixo o desenho da sessão:

Desenho por Luiz Celestino

Nos dias seguintes, participei de muitas outras palestras, painéis, conversas, muitos ensinamentos valiosos sobre carreira, longevidade nesta prática e aplicação dos conhecimentos. Material o bastante para semanas de reflexão pessoal e artistas para pesquisar e conhecer mais a fundo.Também tive o enorme prazer de conhecer pessoalmente o artista João Silva, que entrevistei no passado para o canal do Youtube e que fez uma aula exclusiva para os alunos do Brushwork Atelier Online.

Ainda em Londres, desta vez durante minhas férias, tive a segunda grande experiência da viagem, conhecer de perto a obra do artista Lawrence Alma Tadema. Por sorte, estava tendo uma mostra temporária com mais de 100 obras do artista e de sua família em um pequeno museu de Londres, chamado Leighton House Museum. Este vídeo ao lado de divulgação apresenta um pouco do que estava no acervo da exposição.

Desde as primeiras obras, a mensagem que fica é o quanto somos pequenos em nossa dedicação a prática artística e que temos muito a aprender. Porém, o que realmente me impactou, frente a outros grandes artistas que vi em outras exposições, é seu interesse por retratar cenas do cotidiano histórico. Nesta imagem abaixo, por exemplo, ele retrata um adorador de arte romano sendo apresentado uma escultura.

Arte de Lawrence Alma Tadema

Nesta outra, ao invés de simplesmente retratar o Coliseu em sua magnitude, Alma Tadema resolveu retratar o arquiteto deste edifício monumental durante seus sketchs preliminares. Vale ressaltar que esta obra foi feita em aquarela, o que me deixou ainda mais impressionado com a técnica deste artista.

Arte de Lawrence Alma Tadema

Por fim, foi interessante perceber que muitos dos lugares que ele buscava retratar ele não tinha acesso, numa época em que o acesso a informação era extremamente escasso. Ao Egito, por exemplo, ele foi depois de velho e quando retornou produziu um grande corpo de trabalho sobre o tema, incluindo a obra abaixo sobre a apresentação de Moisés.

Arte de Lawrence Alma Tadema

Isso me deixou também pensativo sobre a quantidade de informação que temos hoje e o quão pouco a exploramos realmente. O estudo de história como embasamento para a criação artística se repete novamente, assim como com o Even durante o IW.

Segunda mensagem para mim mesmo: continuar humilde frente a minha técnica e buscar conhecer mais da história, principalmente em seus pequenos momentos cotidianos.

Houve outros momentos fantásticos durante meu período de férias entre os eventos, tendo visitado Londres e algumas cidades de Portugal com a minha namorada. Como não tem ligação direta com arte, vou resumir em outra importante mensagem para a minha reflexão: morar fora parece ser algo bacana por um tempo, mas tenho laços muito fortes com o Brasil para isso ser algo que quero no longo prazo. Interessante notar depois, falando com artistas no THU, o quanto isso varia para cada um.

Tróia e o Trojan Horse was a Unicorn

Chegamos finalmente a Tróia, depois de encontrar o pessoal no aeroporto e dar uma volta por Lisboa, pegamos o ferry de Setubal e lá estávamos! Quem diria...

Foto por Daga (da esquerda para direita: eu, Cesar Rosolino, Allan Martin, Mike Azevedo, Filipe Pagliuso, Lucas Parolin e Rafael Zanchetin)

Só dessa foto da para perceber o gabarito do pessoal que frequentou o evento, foi realmente um banho de humildade conviver tanto com esse pessoal. Acho que dariam muitas páginas descrever tudo que aprendi com cada um, ter acompanhado o que o THU significava para eles, cada pequeno momento, cada pequena inspiração, ver como lidam com sua arte, seja de forma incessante ou de forma mais tranquila, ver a qualidade impressionante de trabalhos, ver a evolução, expectativas, decepções e vitórias. Isso tudo faz a gente olhar um pouco mais para si mesmo e refletir onde nos posicionamos.

A palavra que fica depois dessa semana é individualidade, cada um é diferente, com seus vícios e manias, pontos positivos e negativos, com opiniões, interesses e objetivos próprios. Muito bacana ver que em uma comunidade onde todos tendem a ser taxados como "iguais", conseguimos encontrar e explorar tanta diferença.

Recrutamento

Começamos o evento pelas sessões de recrutamento, dois dias inteiros de entrevistas para os artistas que enviaram seus portfólios e foram previamente selecionados pelas empresas. Isso tudo antes do evento começar de verdade. Foi muito enriquecedor participar um pouco do processo de cada um dos nossos amigos. Seja em suas vitórias ou feedbacks, a sala de espera para as entrevistas estava cheia de esperanças, emoções e muita união também.

Foto por Artur Filipe

Um fato que me chamou a atenção é o quanto a Riot hoje em dia assumiu o local antigamente ocupado pela Blizzard como a menina dos olhos da comunidade artística. Isso também vale de lembrança do quanto o contexto em geral é mutável, para não balizarmos nossos sonhos em algo tão volátil. O mesmo acontece na transição entre Hollywood e séries de televisão.

Este foi um último motivo para reafirmar que muito daquilo não era para mim. Ao longo dos anos amadureci muito sobre meus anseios artísticos/de carreira e já havia sentido um pouco disso na CTN e convivendo com colegas artistas aqui do Brasil, mas senti ainda mais forte que estou realmente indo no caminho certo com a educação e com o Brushwork Atelier, estou fazendo algo que é meu e que se aproxima mais do tal eu verdadeiro. Foi libertadora essa sensação, de que não existe somente uma forma de viver de arte, ainda mais em um cenário em mudança constante. Essa sensação só viria a se confirmar ouvindo mentes brilhantes como Steve Huston (que por sinal também é uma pessoa fantástica), Iain McCaig, Claire Wendling, o próprio André Lourenço, dentre muitos outros.

Mas e aquela sensação de que você só vai evoluir se dedicando 100% a um assunto, uma aplicação. Isso com certeza continuava na cabeça e por horas me senti sufocado, com a quantidade de trabalhos fantásticos que encontrei por lá, seja dos amigos próximos ou da infinidade de gente boa que vai no evento. Com a quantidade de foco, de motivação, de resiliência. Realmente mostra que ali estão alguns dos nomes mais importantes do meio artístico, seja do passado, presente ou futuro. Não importa o quão certo de si eu possa estar, estas situações sempre me colocam em xeque, quanto as habilidades artísticas, decisões de vida e motivações para continuar. Quem sou eu como artistas, criador de conteúdo, professor? Como algum dia conseguirei evoluir daquela forma.

E até encontrar completamente por acaso este vídeo abaixo, eu não tinha uma resposta. É incrível ver como a dúvida e a discussão são tão semelhantes em um ambiente tão diferente. Vale muito a pena assistir:

O que aprendi com esse vídeo? Mensagem número 4: pessoas com trajetórias e interesses muito semelhantes podem ter caminhos de vida, foco e motivações completamente diferentes. Que não é porque um faz que o outro deve necessariamente fazer e que você deve ir aos poucos se encontrando com o que você tem a dizer para o mundo, o que quer impactar com isso, para onde quer ir. Era isso tudo que eu estava aprendendo aos poucos, sem conseguir traduzir em palavras o que eu sentia.

Cerimônia de Abertura e Evento Principal

Depois destes dois intensos primeiros dias, fomos de fato para a cerimônia de abertura. Acho que não tem nada que eu possa descrever em palavras o que a imagem abaixo não traduza sobre a experiência de estar lá.

Foto por David Ramalho

Foi aí que sentimos a real escala do evento, aproximadamente 1000 pessoas ao vivo e outras muitas através da internet, todas querendo falar sobre arte, evoluir e se inspirar. E não tem como não se inspirar com Alberto Mielgo, que infelizmente não pode ir ao evento este ano, mas enviou um vídeo sobre como ele fez o fantástico poster do evento. Você pode conferir ambos aqui embaixo:

Arte de Alberto Mielgo

Acho sempre um privilégio e um aprendizado ver a forma descontraída como o Alberto lida com a pressão. O mesmo pode ser visto na palestra dele para o THU 2016. Vou deixar o vídeo aqui ao lado para quem tiver interesse. Também aconselho muito a conhecerem ou revisitarem o trabalho dele, que é fenomenal.

Depois dessas apresentações e algumas palavras do André e do Scott Ross, veio aquele que para mim foi o ponto alto da cerimônia, a palestra do executivo Greyson Davis, da Lenovo, uma das empresas patrocinadoras do evento. O meu lado engenheiro e de negócios se identificou muito com o quanto ele foi impactado pelo THU nos últimos anos. Lembro muito de durante minha trajetória de troca de carreira perceber aspectos da vida artística que meu lado racional não conseguia entender. Imagino então receber esse banho de experiências novas em tão pouco tempo.

Meu lado escritor também se identificou muito com a forma como ele conseguiu destilar toda essa experiência dele e o que é ser artista indo ao THU de uma forma muito sucinta, em um dos melhores textos que já ouvi sobre o tema. Para isso, ele utilizou três grandes palavras: Unite (Unir), Transcend (Transcender) e Soul (Alma). Vou estruturar o restante deste post em cima destes tópicos.

Foto por David Ramalho

Unir

Este é o aspecto mais fácil de falar do THU, a sensação de união. De que estamos todos no mesmo "barco", com aspectos muito semelhantes, vivendo vidas bem diferentes do "convencional". Quase todos dispostos a se ajudar, distribuindo sorrisos e empolgados com aquele momento. Claro que existem alguns Gregs, como o evento mesmo alerta neste vídeo ao lado, mas posso dizer que são poucos. Este vídeo por sinal teve a participação dos fabulosos artistas brasileiros Fernando Peque e Victor Hugo Queiroz.

Estes vídeos abaixo apresentam um pouco dessa sensação, ilustrada pela crença em algo melhor para o futuro e também do crescimento indo além só do fazer artístico.

Este ano também marcou a união entre a arte e os negócios, algo importante se quisermos realmente viver de arte. Este outro vídeo do evento conta um pouco do que foram os B-Sides e como o evento pretende impactar o lado de negócios daqui para frente.

Por outro lado, gosto também de olhar para como podemos unir ambientes que não são usuais ao fazer artístico, situações que ainda não pensamos, assim como o quanto o Greyson foi impactado pelo THU, ou o quanto eu fui impactado ao longo destes anos. Acho que é aí que entra o conceito mais importante dos 3 para mim, principalmente neste momento da minha vida.

Transcender

A arte tem, na minha opinião, um grande poder de inspirar nossos dias, abrir uma pequena janela para o desconhecido e imaginativo, fomentar a criatividade e desafiar preconceitos. Além disso, o fazer artístico é ainda mais poderoso ao se estender por anos, cutucar os aspectos mais profundos da existência e do ego e abrir nossos olhos para a beleza nas pequenas coisas que antes não percebíamos. O THU também publicou dois vídeos interessantes sobre como a arte impacta a tecnologia, o futuro e a forma como vivemos:

E não precisamos nem sair da comunidade para ver os impactos deste redescobrimento, auto questionamento e desafio do ego. Assistindo as palestras, conversando ou ouvindo as pessoas, fica muito visível as diferenças entre artistas em "começo" de carreira, artistas mais jovens, como Maciej Kuciara do foto abaixo, se comparado a um veterano como Steve Huston e Iain McCaig.

Foto por Allan Martin

Se pararmos para pensar o quanto aprenderam estes artistas que estão na indústria ou fazendo arte há décadas, desenvolvendo suas habilidades e evoluindo suas questões pessoais, vemos que realmente não sabemos nada e que não vai ser trabalhar no próximo reboot do Spider Man ou em Overwatch 2 que vai nos satisfazer para sempre. Precisa ser mais profundo do que simplesmente o glamour de um grande nome em seu currículo. Iain McCaig fez um palestra inédita nesta edição, contando sua história sem muitos filtros, tanto que a mesma não foi transmitida e nem estará disponível na íntegra no THUTV. É um aprendizado enorme ver como esta pessoa fabulosa lida com grandes problemas, como quase falência e problemas de saúde, com uma desenvoltura exemplar, positivismo e sorrisos. Ainda não acredito que falei para ele do Brushwork Atelier em uma conversa. Espero encontra-lo novamente no futuro. Segue uma foto do começo de sua palestra no último dia do evento:

Foto por Allan Martin

Precisamos transcender nossos próprios preconceitos e ouvir realmente o que eles tem a dizer. Não vai ser o tutorial sobre anatomia humana ou o curso daquela escola "dos sonhos" que vai te ensinar o que é ser artista e lidar com essas questões por uma vida inteira. Pensem nisso. Também não vai ser uma atitude negativa com relação a indústria que vai me fazer gostar mais de ser artistas. Eu penso muito nisso.

Um parênteses importante é que quase não fui a nenhuma palestra no THU, verei a maioria pelo THUTV, que comprarei pela terceira vez. Preferi vivenciar todas estas experiências de uma forma diferente do que tinha feito nos anos anteriores. 

A palavra Transcender no âmbito artístico também me impactou pessoalmente. No THU, na fila de uma das palestras, fui reconhecido por um português que acompanha o canal do Youtube do Brushwork Atelier. A sensação foi indescritível de ver seu projeto tomar proporções que você não podia nem sonhar a respeito no passado. Também tento fazer minha parte nessa grande "jornada" de descobrimento de cada um dos artistas, por um lado informando e dando atalhos e por outro cutucando e questionando sobre essas questões além da técnica. Eu mesmo, por vezes caio na armadilha de só buscar a técnica e sou questionado diretamente ou indiretamente por pessoas próximas. Temos um grande caminho a percorrer, mas neste momento estou feliz com o que está sendo feito. Quinta mensagem pessoal: valorizar mais o que eu contruí até aqui, o que isso significa para a comunidade e o quanto eu também aprendo com o processo. Buscar também atingir cada vez mais pessoas desconectadas do nosso universo.

 Retirada da página do Facebook do Expedition Art

Retirada da página do Facebook do Expedition Art

Acredito, porém, que podemos ir além e fazer muito mais do que motivar artistas e ficarem melhores e pensarem mais em suas vidas. Desde antes desta viagem, já venho me questionando o quanto podemos impactar pessoas de fora da esfera artística, de fora da "tribo". Seja inspirando, informando e até questionando através de peças artísticas ou com o próprio fazer artístico por hobby, terapia ou descobrimento do mundo a nossa volta. Como podemos impactar mais gente com o que fazemos? Acho que não existe resposta certa, mas no THU conheci um projeto que me encantou e queria tirar o final deste post para falar a respeito. O projeto se chama Expedition Art e sua missão é "Let's change the world, one drawing at a time" (vamos mudar o mundo, um desenho de cada vez). O projeto, que hoje é uma fundação sem fins lucrativos, foi fundado por Manuel Carrasco, Kristy Tipton e David Levy, e conta com um time de artistas colaboradores de invejar qualquer projeto de Hollywood ou de jogos, incluindo Thierry Boizon, Terryl Whitlatch, Aaron Blaise, Iain McCaig, Claire Wendling, dentre muitos outros. Segue uma foto deles abaixo:

 Retirada da página do Facebook do Expedition Art. Da esquerda para a direita, Manuel Carrasco, Terryl Whitlatch, Kristy Tipton, Iain McCaig, Aaron Blaise e David Levy

Retirada da página do Facebook do Expedition Art. Da esquerda para a direita, Manuel Carrasco, Terryl Whitlatch, Kristy Tipton, Iain McCaig, Aaron Blaise e David Levy

Um dos primeiros projetos da fundação é um livro ilustrado por alguns dos melhores artistas da indústria e que irá reverter todos os seus lucros para a preservação de animais. Só de um play no vídeo e eu não preciso falar mais nada sobre a magnitude artística deste projeto.

Fico me perguntando o quanto não podemos impactar pessoas com artes dessa qualidade em muitas outras esferas.

Voltando ao Expedition Art, durante o evento, eles deram uma entrevista para o canal Art Cafe, do Maciej Kuciara, contando um pouco do projeto e de como se envolveram nele. Vale a pena conferir também.

Tive o prazer de estar presente nas palestras do Manuel Carrasco e do David Levy, onde eles falaram mais de suas trajetórias artísticas, carreira e como chegaram no projeto. Foi mais uma reafirmação de que a maturidade trás muitos questionamentos que não antecipamos quando jovens.

Alma

O último conceito que quero discutir resume um pouco tudo que vimos até aqui. Viver envolto em arte é se entregar de corpo e alma ao aprendizado, à prática, à comunidade, aos desafios, às frustrações, às alegrias, às conquistas, ao auto-conhecimento e ao desprendimento do ego.

É fazer parte de algo maior que você, de algo que precisa se tornar ainda maior com os anos e que vai impactar a vida de todos.

Obrigado a todos que se entregaram de corpo e alma a essa semana que passamos juntos, pelas conversas, feedbacks, risadas e vinhos que tomamos juntos. E, claro, ao André e sua equipe por fazer tudo isso ser possível.

Foto por David Ramalho

O THU para mim foi assim, percebi que faço parte de uma comunidade fantástica e que tenho um papel importante a cumprir nela, aprendi que estou feliz com o meu momento atual, com as perspectivas de futuro e com os caminhos artísticos que quero seguir e que não preciso ser igual aos outros para me satisfazer e para ter uma imagem boa no meio. Certamente para cada um dos participantes foi diferente e falar sobre o evento de uma forma genérica seria perder a riqueza da nossa individualidade.

Vamos em frente, espero que nos encontremos novamente (aos brasileiros, que sejam mais frequentes nossos encontros), onde quer que for, cheios de novas experiências para compartilhar!

Foto por Allan Martin

Obrigado!

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