Design Gráfico é uma opção viável de graduação para quem quer ser Desenhista/Ilustrador no Brasil?

Você gosta de desenhar e está pensando em qual faculdade deveria fazer? Está na faculdade e se sente frustrado com o que está aprendendo? Ou gostaria de voltar a estudar para seguir uma carreira artística?

Neste post, vamos iniciar a discussão sobre as opções de graduação para quem quer seguir carreira  em ilustração, animação e concept art ou simplesmente por gostar de desenhar, uma vez que não temos quase nenhum curso focado nestes tópicos. Conheço somente o curso de Design para Animação da UFSC, para o qual devo fazer um post em algum momento, se souberem de outras instituições, por favor, me contem! Esta conversa segue a linha de pensamento de outra publicação, sobre a análise do desenvolvimento do olhar crítico, dividido em duas partes que você pode conferir nos links parte 1 e parte 2.

Especialmente na parte 2, ficou claro que no Brasil, seguindo somente a estrutura oferecida e os projetos sugeridos na graduação não será o suficiente para que você esteja apto a atuar nos mercados de ilustração e entretenimento após sua formatura. Porém, alguns cursos nacionais apresentam alguns pontos interessantes para quem quer seguir carreira nesta área.

Decidi começar discutindo a opção do curso de Design Gráfico, uma das escolhas mais comuns dentre aqueles que gostam de desenhar e sentem a necessidade de perseguir um título acadêmico, seja por livre e espontânea vontade ou por pressão, pessoal, familiar ou social. Também é um curso com ampla disponibilidade nacional, estando presente na grade de cursos de quase todas as faculdades e universidades do Brasil.

Como esta não é minha área de formação, preferi conversar com quatro grandes amigos e fantásticos ilustradores/designers/concept artists brasileiros, Cesar Rosolino, Marco AlvaresLucas Parolin e Rodrigo Windt Idalino, que cursaram Design Gráfico. O Cesar e o Marco fizeram UNESP, em Bauru, São Paulo, o Rodrigo fez na Belas Artes de São Paulo, capital, e o Lucas fez Desenho Industrial - Programação Visual (atualmente chamado de Desenho Industrial - Design Gráfico), na PUC-PR, em Curitiba, Paraná.

A evolução dos trabalhos do César Rosolino durante a graduação, por exemplo, na imagem abaixo, mostram que pelo menos algo de certo ele fez com relação a desenho e ilustração. Os demais tiveram cada um seu caminho e seus portfolios mostram o quão qualificados estão para falar a respeito destes temas.

Arte de Cesar Rosolino

Arte de Cesar Rosolino

O curso de Design Gráfico, segundo o Wikipedia, é a área de estudo focada no ordenamento de elementos visuais textuais e não-textuais para a composição de peças gráficas com objetivo comunicacional. Isto é, na leitura do autor,. a organizar textos e imagens de forma a passarem uma mensagem. Ok, mas o que isso tem a ver com desenho e ilustração? Como eu aplico Design Gráfico em meus trabalhos? No fim das contas, uma ilustração é a organização de textos e imagens para passar uma mensagem, mas normalmente as imagens são artes representativas e muitos vezes não tem textos. Mas a ilustração é só uma das formas de comunicação e de organização de imagens e textos.

Aí começa o problema, pois muitas vezes os alunos não fazem pesquisas o suficiente e acham que vão estudar desenho a faculdade inteira, principalmente quando o nome do curso é Desenho Industrial e não Design. Em todas as conversas que tive, eles escolheram o curso mais por gostarem de desenhar do que pelo que iam realmente aprender. O Lucas fez questão de deixar isso bem claro.

"Apesar de haverem matérias nesse sentido, é importante lembrar que não é uma graduação em ilustração!"

Arte de Lucas Parolin

Arte de Lucas Parolin

Neste ponto, fica a dica importante para quem ainda está pensando em ingressar neste curso, seja na primeira ou segunda graduação, ou conhece alguém nessa situação. Pesquise! Leia atentamente as ementas de cada disciplinas. Converse com diversos profissionais a respeito, pergunte! É um trabalho que deveria levar semanas e não horas ou até mesmo minutos.

Mas aqui vamos discutir como o curso de Design Gráfico pode ser melhor aproveitado por desenhistas e ilustradores. Para tal, vamos utilizar a estrutura do desenvolvimento do olhar crítico, discutida por Scott Robertson:

  • Aulas/Conteúdo
  • Projetos/Prática
  • Apresentação
  • Crítica

Aulas/Conteúdo

Primeiramente vamos falar do conteúdo e citar alguns pontos que são interessantes. Não pretendo ser exaustivo nesta questão e reforço que cada um deveria fazer sua pesquisa, possivelmente até lendo partes da bibliografia do curso para saber o que você está escolhendo. Uma vez já no curso, acho mais importante ainda a revisão bibliográfica e busca o que pode ser aplicado para aquilo que você procura.

Vou tomar a liberdade e dividir o curso em três grandes etapas: Conceituação, Experimentação e Aplicação.

O que chamo de Conceituação, pelo que pude perceber, é o momento do curso quando são trabalhados tópicos fundamentais, como a percepção dos alunos, capacidade de ler espaços, formas e volumes, uso de diferentes materiais e a introdução a alguns conceitos teóricos como semiótica, história da arte, teoria de cores e composição. Disciplinas como Desenho de Observação, Desenho da Figura Humana, Desenho Técnico, Fotografia, História da Arte e História do Design fazem parte deste bloco.

Este é o momento do curso onde existe a maior aplicação direta com os conceitos do desenho e ilustração. Muitos dos conceitos e técnicas serão utilizadas no desenvolvimento destas disciplinas também.

Estes fundamentos  conduzem ao momento que chamei de Experimentação, que é a aplicação do que foi visto anteriormente nos tópicos de design. Disciplinas com foco na organização, combinação e edição de formas bi e tridimensionais se encaixam neste bloco. 

A aplicação aqui dos conceitos em ilustração começa a ficar mais abstrata, porém disciplinas como a Tipografia, por exemplo, tem uma função importantíssima para ilustradores, apresentando conceitos de proporções, relação de espaços positivos e negativos, composição, dentre outros. Neste vídeo publicado em seu canal do Youtube, Scott Robertson (veja mais sobre ele neste post) discute as importâncias da prática destas habilidades, tanto no sentido conceitual quanto prático.

O mesmo vale para os cursos que apresentam as formas geométricas, suas especifidades, aplicações, combinações e o resultado em termos de comunicação visual e experiência/sentimento dos observadores.

O livro Picture This, de Molly Bang, demonstra como o uso de formas simples pode melhorar drasticamente sua capacidade de compor imagens e contar história. Está tudo nos formatos, posições, proporções e relações de espaços positivos e negativos, todos conceitos amplamente discutidos em design gráfico.

Picture This: How Pictures Work
$7.17
By Molly Bang

Scott Robertson também apresenta estes conceitos em outro vídeo sobre form language, ou linguagem de formas. Ele começa o vídeo apresentando o livro de Philip Meggs, A History of Graphic Design (Uma história de design gráfico), referência bibliográfica de praticamente todos os cursos deste tema. Depois, mostra a aplicação de formas em produtos ao longo do último século e por último na indústria do entretenimento.

Referências dos livros:

Meggs' History of Graphic Design
$64.67
By Philip B. Meggs, Alston W. Purvis
The Look of the Century
By Michael Tambini

Por último, vem o momento de Aplicação, onde inseri as disciplinas voltadas para o uso de todos os conceitos e experimentações em projetos reais, que englobam desde logos, passando por diagramação e formatação de layouts até a própria ilustração.

Este projetos são muito importantes para por em teste aquilo que você aprendeu até aqui. Tenha em mente que será tão difícil quanto um desenho ou ilustração, cada um com suas especificidades. Como o Marco disse em nossa conversa:

"Temos que reconhecer arte boa, não importa a forma."

Arte de Marco Alvares

Arte de Marco Alvares

E eu complemento dizendo que arte boa é difícil de se fazer, não importa a forma. Então valorize os desafios e experimente. Como disse o Rodrigo:

"Qualquer experiência, por mais irrelevante que possa parecer, um dia acrescentará na sua formação"
Arte de Rodrigo Windt Idalino

Arte de Rodrigo Windt Idalino

Existem também no entretenimento aplicações diretas do Design Gráfico. A imagem abaixo, do jogo Destiny, demonstra um exemplo da boa organização de formas na criação de experiências visuais interessantes:

Arte conceitual do jogo Destiny, da empresa Bungie

Arte conceitual do jogo Destiny, da empresa Bungie

Também existe a aplicação direta no dia a dia da carreira de um ilustrador, seja na organização de elementos em seu site, portfolio ou produtos sendo entregues para o cliente.

"Ter um olhar crítico para estes elementos só adiciona ao trabalho de arte." - Rodrigo

O importante é abrir a mente para as possibilidades, não se feche completamente frente a um tema só baseado em seus preconceitos ou no que está sendo ensinado em sala de aula, muitas vezes os professores não serão os mais aptos a ensinarem aquela disciplina específica e cabe a você se desenvolver por conta. Busque conhecimento, busque aplicação, pesquise. A internet é uma ferramenta essencial para tal.

Quanto ao conteúdo específico de ilustração e design para entretenimento, você realmente terá que estudar muito por fora, para tal existem uma série de conteúdos que venho discutindo no blog como um todo. Vale pesquisar e saber que se você quiser chegar a algum lugar com o desenho e ilustração, terá que aprender praticamente tudo por fora. O que estamos colocando aqui é como aproveitar o curso de forma eficiente e não pregando que ele será suficiente. Para o mercado de entretenimento, o curso de design gráfico não te formará se você não estudar por fora.

Em todas as conversas isso ficou bem claro, praticamente tudo que eles aprenderam de desenho e ilustração foi fora da estrutura da graduação.

Projetos/Prática

Nesta parte vou focar nas questões de desenho, ilustração e entretenimento, ou seja, externas a grade convencional. É aqui que você realmente vai ter que se dedicar. Os conhecimentos do curso com certeza vão trazer benefícios e devem ser aplicados e praticados, mas para ter uma evolução como a do Cesar, por exemplo, você terá que praticar desenho constantemente. Todos os dias! Ele disse:

"Eu levava um sketchbook para todo lugar. Tinha que desenhar todo dia, não tinha como evoluir de outra forma."

Nesse quesito, a formação de grupos de estudo dentre outros alunos com a mesma busca na faculdade ou participar de comunidades online é essencial. O Cesar também disse:

"O mais valioso para mim na faculdade foi o contato com outros alunos."
Arte de Cesar Rosolino

Arte de Cesar Rosolino

Como Scott diz em seu vídeo sobre o desenvolvimento do olhar crítico:

"Você não pode nunca subestimar o poder de um grupo de indivíduos com mentes semelhantes e um único objetivo e o quanto eles conseguem acelerar a curva de aprendizado por desenvolverem formas de se comunicarem entre si e desenvolverem seus olhares críticos."

Apresentação e Crítica

Outro ponto complicado da estrutura da graduação e que você terá que buscar externamente. Apesar de você poder ter a sorte de encontrar bons instrutores na sua universidade, não é regra, principalmente com relação a desenho e ilustração. Desenvolvi um pouco esta questão no post sobre olhar crítico parte 2 (acesse clicando aqui), principalmente com relação a necessidade de titulação.

É importante então estar em contato direto com outros artistas e quando possível com profissionais, mostre seu trabalho e discuta sobre ele. Busque as próprias falhas e ouça, absorva e reflita sobre as críticas. Também vale neste ponto ler o post sobre desenvolvimento do olhar crítico, ambas as partes, caso não tenha lido.

Resumo

Em suma, acredito que os três grandes pilares para o desenvolvimento do desenho e ilustração dentro dos cursos de Design Gráfico (que certamente se expandirão para outras graduações) são:

  • Busque olhar além da superfície nas disciplinas que está cursando e questione qual a possível aplicação, direta ou conceitual, para o desenho e ilustração
  • Complemente o conteúdo da graduação com os tópicos específicos de desenho e ilustração através de livros, vídeos e cursos livres
  • Pratique muito! Todos os dias!
  • Procure mentes semelhantes na faculdade e comunidades online para compartilhar idéias, conteúdos e problemas, criticando os trabalhos uns dos outros e crescendo juntos
  • Mostre seu trabalho quando possível para profissionais do setor, participe de eventos e feiras relacionadas ao desenho e a ilustração e procure quem realmente entende do assunto

O curso de Design de Produtos, apesar de algumas disciplinas em comum, tem um foco diferente e portanto tentarei abordar em outro post, tendo conversado com profissionais deste curso. Mas existe relação clara entre ele e o design para entretenimento por exemplo.

Espero ter ajudado e fiquem a vontade para acrescentar, comentar, criticar ou sugerir!

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